Thursday, March 03, 2005

Vítor Baía



1. Surgiu de repente, vai para dezassete anos, porque era preciso guarda-redes para actuar em Guimarães; do teste por exclusão de partes, que não se esgotou no dia da estreia, em Setembro de 1988, Vítor Baía saiu vitorioso por serenidade, confiança e insistência, enquadrado pela impressionante classe que nunca o abandonou. Agiu então como se estivesse a cumprir o destino que só ele conhecia, indiferente às notícias de que, algures na Europa, havia quem procurasse alternativa mais fiável ao inesperado colapso de Mlynarczik. Porque adaptou o talento às circunstâncias e enriqueceu o currículo com números expressivos, tornou-se uma figura de referência. Porque joga cada vez melhor e não pára de somar títulos, tornou-se um mito eterno. No FC Porto e no futebol português.

2. Um dos grandes méritos de Vítor Baía foi interpretar perfeitamente cada etapa da carreira: revelou maturidade precoce, como adolescente deslumbrado, no primeiro impacto com a fama; travou a tempo a exuberância prejudicial no período em que foi cobiçado por meia Europa; redescobriu forças, preservou o orgulho e pôs à prova a ambição quando o joelho maldito lançou o desafio do futuro incerto; aproveitou a entrada na veterania para seleccionar as melhores qualidades e acrescentar a experiência que o tempo refinou. Cumpriu afinal o trajecto comum aos maiores guarda-redes da história do futebol. Tal como esses parceiros na lenda das balizas, só depois dos 30 anos conjugou a plenitude das qualidades técnicas, tácticas, físicas e psicológicas.

3. Lev Yashin (considerado o maior de todos os tempos) tinha 37 anos no Mundial de 1966, exemplo de longevidade e talento que, nas últimas três décadas, abrange figuras inesquecíveis como Sepp Maier, Fillol, Zoff, Clemence, Dassaev, Pfaff, Van Breukelen, Schmeichel e Kahn. Em Portugal, João Azevedo foi baluarte do Sporting dos “Violinos” até aos 36 anos, os mesmos com que Manuel Bento arrasou no Europeu de 1984 – e só a fractura em Saltillo (1986) o impediu de jogar ao mais alto nível para lá dos 40. Carlos Gomes, outro membro da ilustre dinastia, jura que em 1966, aos 34 anos, vivia o melhor momento da carreira ao serviço do Meknés (Marrocos) – diz ele, com o desassombro do costume, que o exílio forçado custou a Portugal o título de campeão do Mundo. Já Vítor Damas abandonou, aos 41 anos, cansado de ser o melhor e de ouvir dizer que estava velho e acabado.

4. Vítor Baía mantém intocáveis os valores juvenis de agilidade, elegância, coragem e velocidade de reacção; pelo caminho aperfeiçoou argumentos adultos como simplicidade de processos, tranquilidade, segurança e sentido de eficácia. Porque o tempo o encheu de medalhas e um líder também se constrói pelo efeito que provoca nos outros, assumiu o comando absoluto da manobra defensiva do FC Porto, tarefa para a qual se apetrechou com saber, credibilidade, voz e inteligência. Aos 35 anos, que era a idade de Michel Preud’homme quando chegou a Portugal, Vítor Baía atingiu a expressão máxima como guarda-redes, dando seguimento ao ciclo iniciado em 2002. Com uma vantagem: ainda não deu o mais leve indício de ter entrado no último capítulo da história.

Rui Dias