Saturday, May 29, 2004

O Carismático Baía



«Agora só o preconceito alimenta quem pretendeu ter razão antes do tempo. Tudo tem um fim e Vítor Baía reclamou o direito a pronunciar-se sobre o seu. Decidiu que é para depois»

1. O tempo é um velho aliado do guarda-redes: traz a experiência fundamental ao cumprimento da função e, para ser perfeito, só precisa de não levar velocidade, reflexos, coragem e saúde; acrescenta factores adultos indispensáveis a um lugar exigente na responsabilidade perante o grupo (serenidade, estatuto e liderança) e está proibido de danificar as armas mais poderosas da juventude (instinto, ilusão e magia). Para o guarda-redes, ao contrário dos restantes companheiros de ofício futebolístico, os 30 anos não funcionam como limite do crescimento: são apenas uma portagem que todos pagam no caminho para a maturidade; uma fronteira imaginária na qual carimbam a expressão máxima de qualidades desenvolvidas ao longo da vida. Porque se trata de actividade que, ao mais alto nível, está interdita a menores, em regra o guarda-redes de excepção é um puzzle que se completa aos poucos.

2. O temperamento define o primeiro critério de selecção: nem todos os bons estão habilitados a ser baluartes das maiores potências. O guarda-redes de uma grande equipa parece um espectador mas faz parte do elenco; observa mas não se pode distrair; é protagonista mas passa a maior parte do tempo como actor secundário – por ter aparições esporádicas torna-se mais visível para o elogio ou a crítica. Quando comete um deslize grave, sofre mais do que nunca os efeitos da solidão: fica sem jeito, à mercê da acusação exterior de responsabilidade por todos os pecados colectivos. É então que precisa de ser forte para manter o equilíbrio (o jogo continuará a desenrolar-se longe) e perceber que a rectificação do erro pode até ficar adiada para outra altura (hora e meia, às vezes, não permite acertar todas as contas). Se nessas circunstâncias controlar as emoções e mantiver a concentração, estamos perante o anúncio solene: é o homem certo no lugar certo.

3. Moreira está a crescer bem e depressa; Quim não tem equipa; Nélson e Tiago procuram consistência. Com 27 anos, Ricardo está a cumprir as etapas que conduzem à construção de um extraordinário guarda-redes: por confiança em si próprio, mantém o desejo de participar no jogo; sem correr riscos, não perdeu preocupações de ordem estética; por temperamento, é generoso com o público na espectacularidade que empresta às acções. Aos poucos tem moderado os ímpetos e já dá mais valor à sobriedade, ao sossego e à segurança; porque a experiência é cada vez maior, passou a reger-se segundo a lógica e as regras das grandes equipas – a selecção sempre, o Boavista às vezes. Todo um manual de comportamento que, em Portugal, só um guarda-redes conhece de trás para a frente: Vítor Baía. E para o caso não tem qualquer importância ser ou não melhor que os outros – advirto, porém, que remo contra a corrente e acho que sim, ainda é o melhor de todos.

4. Vítor Baía viveu sempre em grandes equipas (FC Porto, Barcelona e Portugal). Ele foi o menino-prodígio transformado em herdeiro da grande dinastia (Azevedo, Carlos Gomes, Damas e Bento); o adolescente com perfil de adulto, que resumiu precocemente maturidade, classe, inteligência, voz, confiança e intimidação; o elemento consensual de uma potência dimensionada a partir de conflitos que sempre geraram mais ódios que simpatias; o lutador que não se rendeu e aceitou pôr à prova dor e ambição. O Mundial da Coreia foi o mote para as primeiras grosserias; a ausência das listas de Scolari (mistério para o Euro-2004) legitimou sessões públicas de vampirismo indecente. Baía tem o aconchego de 14 anos marcantes para o futebol deste País; tão importante quanto isso suporta-se numa época de ouro, com a qual tem silenciado os profetas da desgraça. Agora só o preconceito alimenta os fundamentos de quem pretendeu ter razão antes de tempo. Tudo tem um fim e Vítor Baía reclama apenas o direito a pronunciar-se sobre o seu. Decidiu que é para depois. Por mim, está decidido.

Rui Dias