Saturday, May 29, 2004

Eu tive um sonho, e nesse sonho o melhor Guarda-Redes do Mundo e um dos melhores na História do Futebol, erguia a Taça dos Campeões Europeus.



A imagem monumentaliza, como acontece com certas esculturas, uma ideia. Porventura a de heroísmo, porventura a de saudade, certamente a de eternidade.

"Aquilo que conta numa imagem não é o seu pobre conteúdo, mas sim a louca energia captada prestes a explodir" - Deleuze

QUESTÃO DE RESPEITO OU DE INTELIGÊNCIA?

Ricardo recusou envolver-se na polémica, mesmo quando questionado sobre se Vítor Baía deveria, ou não, estar entre os 23 eleitos: "Perguntar isso, é uma falta de respeito para quem cá está". "Se o treinador entendeu que os guarda-redes que estão aqui são os melhores, também entendo que sim", acrescentou.



Pode existir uma outra interpretação acerca do respeito que um jogador merece - por exemplo, forçar toda a lógica e colocar na baliza da selecção um guarda-redes que está na sua pior forma de sempre...

... e pôr de lado, nem sequer o escolher entre os 3 melhores na sua posição, um outro guarda-redes que está num pico de forma e de auto-confiança...

... e que nos últimos dois anos ganhou 2 campeonatos nacionais e duas Taças Europeias...

e esteve, a todos os níveis, muito melhor do que o foi escolhido para a selecção, sobretudo na raça que exala e na segurança que inspira...

...pode ser um acto de genuína estupidez do seleccionador e que pode colocar o guarda-redes escolhido numa pressão insuportável - se Ricardo falhar no Euro 2004, pode ser o princípio do fim da sua carreira.

Oxalá que não...


Carlos Alves

Baía's courageous comeback




Tuesday, 02 September 2003
By Carlos Carvalho

The phoenix from the flames. It is an adage that could well apply to the FC Porto goalkeeper Vítor Baía. After a long-term knee injury that required painstaking surgery, the Portuguese international has the same desire he possessed before injury left him with a mountain to climb to resurrect his career.

Elegant performer
Vítor Baía is considered his country's best goalkeeper of all time. "He has all the necessary characteristics of a goalkeeper - and adds to this his own unique elegance," said one observer. And now he is back in business, his superb displays having helped Porto claim the Portuguese Superliga, the Portuguese Cup and, best of all, the UEFA Cup last season.

Dream move
Those performances recalled the Vítor Baía of the mid-1990s, whose form had prompted a €6m transfer to FC Barcelona from Porto in 1996. But after a hero's welcome to Catalonia, the dream move turned sour. Following a fine debut season at Camp Nou, a severe injury to his left knee put his career in doubt, and when he tried to play through the problem, his reputation also hung in the balance.

Four operations
Surgery was needed on four occasions with the aid of top orthopaedic specialists including Spanish professor Josef Borrel, doctor Mário Beça in Portugal, and then Bosnian surgeon Nebosja Popovic - first in Belgium and then at a specialised hospital near Porto. All the while, Vítor Baía showed faith in his own will and rejected any psychological support. "I was perfectly aware of the risks," he said. The 33-year-old remembers the "tremendous pressure" he faced at the time, but a move back to Porto in 2000, after an initial return on loan, proved beneficial.

No regrets
Now he is through the barrier of his comeback, the player has no regrets. "I knew I was going to recover because I have a strong will and enjoyed the support of my wife and sons as well as the Porto management," he explained. "I also had the privilege of knowing who my true friends were. I found out about those people who seemed to be friends but walked away. There were so many rumours and a lot of wrong information. Only a few people believed I would be a top goalkeeper again."

Shining example
Vítor Baía recognises that he learned an important lesson, saying: "I have grown up a lot as a human being and as an athlete. Today I feel stronger and much better prepared to face any eventuality - any good or bad thing that can happen to me." Back at the top of his profession, he merely wants to "enjoy the matches, take pleasure from the game, enjoy being on the pitch again irrespective of whether my team wins or loses". By showing this ambition, confidence and willpower, Vítor Baía is an example of how players can overcome serious injury and haul themselves back up the ladder.

Fonte site da Uefa

“A Selecção merece um Vitor Baía?”




Diz o Eng.º Gilberto Madaíl que tem uma grande admiração pelo Vitor Baía. Ainda bem. Não é o único.
A propósito destas declarações veio à baila, pela enésima vez, a questão “O Vitor Baía merece estar na Selecção?” - anti-portistas e Seleccionador Nacional à parte, parece não haver grandes dúvidas sobre a resposta: sim, merece.
Parece-me, no entanto, que, por ser tão óbvia a resposta, já vai sendo tempo de os jornalistas reformularem a pergunta. Em vez de “O Vitor Baía merece estar na Selecção?” talvez comece a fazer mais sentido perguntar “A Selecção merece ter o Vitor Baía?” Eu acho que não.

Ricardo Oliveira

onze!




Krajl, Rui Correia, Wosniak, Silvino, Eriksson, Vitor Nóvoa, Costinha, Hilário, Silvino (é outro), Pedro Espinha e Jorge Silva. São onze - onze! - e já passaram pela baliza do Porto quando o Baía esteve lesionado, castigado ou emigrado. Há mais, mas, todos eles, juntos, ao mesmo tempo, na mesma baliza, não fazem um Vitor Baía.

Ricardo Oliveira

O Esteta Baía



A talho de foice, vem também a já tão falada exclusão de Vítor Baía – também ele distinguido pela «Gazzetta dello Sport» como o melhor guarda- redes desta fase da Liga dos Campeões. Baía está a realizar uma época simplesmente brilhante, exibindo classe, calma e confiança em todos os jogos e todos os ambientes, por mais difíceis que sejam.O país inteiro sabe e vê semanalmente que Baía é actualmente o guarda-redes português em melhor forma, seguido do Moreira. Ele é, além disso e desde sempre, o único que temos que domina por completo o jogo aéreo, com um tempo de saída perfeito e uma calma que chega a parecer arrogância aos adversários. Como tudo o indica, Baía vai ser excluído do Europeu, por razões pessoais do seleccionador, que nunca ninguém entendeu, mas que obviamente não têm que ver com ele mas com o clube que representa – como o provou a célebre provocação de chamar à Selecção o terceiro guarda-redes do FC Porto, para o fazer jogar um minuto e evidentemente desaparecer das convocatórias desde então e para todo o sempre. Scolari vai portanto, mantendo a sua soberba, optar por Ricardo e Quim – qualquer deles com quase o dobro de golos sofridos no campeonato em relação a Baía. Apesar de ser de bom e patrioteiro tom prestar tributo, se não mesmo vassalagem a Scolari, é necessário ter a coragem de dizer que a exclusão de Baía é um acto determinado por exclusivas razões pessoais, que seguramente não são recomendáveis. Vítor Baía tem uma longa e prestigiosa carreira ao serviço do futebol e da Selecção de Portugal. Scolari, ao fim de mais de um ano – veremos o que consegue amanhã, contra a Itália – tem apenas no currículo ao serviço da Selecção, além de uma histórica derrota com a Espanha, uma série de jogos inconsequentes, alguns piores, outros menos maus.

Miguel Sousa Tavares antes do jogo com a Itália

La Sagesse




Após o sorteio do europeu, o jornalista questionou o seleccionador Francês acerca das hipóteses da selecção portuguesa. Já bem bastava este paroquialismo que se vai tornando num clássico do pedantismo nacional, sempre que a nossa comunicação social entrevista alguém com um BI estrangeiro lá sai a pergunta: "Então e Portugal, o que é que acha?" E pronto, que remédio! Lá se descosem os estranjas falando do bacalhau que comeram uma vez e do primo da irmã da vizinha que tem um irmão que foi passar férias a Portugal e, claro, gostou muito. Mas, o que é mesmo interessante é a resposta do seleccionador francês. Disse ele que Porugual terá boas hipóteses porque tem um seleccionador campeão do mundo e jogadores de indesmentível qualidade internacional. agora atenção. Falou de Rui Costa, Figo, Fernado Couto e ... Vítor Baía. Para alguns esta menção a um guarda-redes tão marginal demonstra a ignorância do francês. Outros há que calam a escrita em jeito de enigma.

Bruno Sena Martins

O regresso do monstro



1. O tempo cumpriu a obrigação e deu-lhe a experiência que o tornou ainda mais brilhante e seguro. Ele aceitou as regras do jogo e seguiu o manual adequado às circunstâncias: aperfeiçoou o domínio dos valores adultos que só a idade permite interpretar totalmente (serenidade, estatuto, liderança.) e manteve intactos os pressupostos adolescentes de quem entrou nas nossas vidas, no final da década de 80, como fenómeno precoce baseado em raciocínio rápido, confiança, trabalho e talento natural. Porque o processo de´construção de um guarda-redes é evolutivo e contingente - exige um~enriquecimento gradual de argumentos, proibindo danos irreparáveis naqueles que já são considerados adquiridos -, só entre os 33 e os 34 anos consumou o resumo de todas as qualidades e atingiu a máxima expressão como grande senhor das balizas.

2. Defensor de conceitos estéticos apurados, Vítor Baía adaptou elegância e desejo de participação às necessidades do colectivo. Moderou ímpetos e transformou-se na verdadeira enciclopédia do guarda-redes de grandes equipas: por ser um espectador que também entra no filme, estimulou os requisitos da paciência; por ser um observador que não está autorizado a distrair-se, mantém a concentração em alerta máximo; por ser um protagonista eterno mas passar boa parte do tempo como actor secundário, controla as
emoções e armazena dados no disco rígido enquanto a acção se desenrola do outro lado do campo. Agora que joga cada vez melhor com os pés, já não é um prisioneiro da área; mas porque o sentido de responsabilidade fala mais alto, também não será afectado pelas extravagâncias de quem pretende conquistar o Mundo.

3. Perto dos 30 anos, imposto obrigatório que os guarda-redes pagam para~atingir a plena maturidade, lesionou-se gravemente no joelho direito. Nesse percurso de dor e esperança, decidiu recuar no tempo e recuperar, no papel de veterano em dificuldades, a força motriz da juventude: em nome de um sonho, reformulou o conceito de ambição e o orgulho de ser jogador de futebol; porque não queria ficar a meio da viagem, despertou as memórias do que já fizera e valorizou a importância do nome que construíra ao longo de uma década. Sim, os seus limites estiveram quase a derrotá-lo; sim, entre 1997 e 2001 teve aparições esporádicas, muitas delas com o objectivo de afugentar (nem sempre com êxito) os fantasmas criados pela sua ausência. No fim, quase em desespero, reclamou uma última oportunidade. Ele lá sabia porquê.

4. Vítor Baía é um jogador de época, cuja expressão e peso relativo na história do futebol só encontra paralelo nos mitos de Azevedo, Carlos Gomes, Damas e Bento. Concluída a travessia que o trouxe de volta ao pedestal de melhor guarda-redes português - com a diferença de agora o ocupar com mais e melhores soluções técnicas; recuperada a disponibilidade física total que lhe devolveu a coragem e a confiança indispensáveis ao desempenho da função, pode até fazer um brinde às motivações perversas de quem reclamou vitória antes de tempo. Ultrapassadas dúvidas e ingratidões; desmascarada a vingança daqueles que despejaram ódios acumulados em silêncio quando o sentiram próximo do fim, Vítor Baía não tem de se preocupar: a quem discute os seus méritos como guarda-redes já só resta o preconceito, a ignorância e, em certos casos, a patetice.

Rui Dias

O Carismático Baía



«Agora só o preconceito alimenta quem pretendeu ter razão antes do tempo. Tudo tem um fim e Vítor Baía reclamou o direito a pronunciar-se sobre o seu. Decidiu que é para depois»

1. O tempo é um velho aliado do guarda-redes: traz a experiência fundamental ao cumprimento da função e, para ser perfeito, só precisa de não levar velocidade, reflexos, coragem e saúde; acrescenta factores adultos indispensáveis a um lugar exigente na responsabilidade perante o grupo (serenidade, estatuto e liderança) e está proibido de danificar as armas mais poderosas da juventude (instinto, ilusão e magia). Para o guarda-redes, ao contrário dos restantes companheiros de ofício futebolístico, os 30 anos não funcionam como limite do crescimento: são apenas uma portagem que todos pagam no caminho para a maturidade; uma fronteira imaginária na qual carimbam a expressão máxima de qualidades desenvolvidas ao longo da vida. Porque se trata de actividade que, ao mais alto nível, está interdita a menores, em regra o guarda-redes de excepção é um puzzle que se completa aos poucos.

2. O temperamento define o primeiro critério de selecção: nem todos os bons estão habilitados a ser baluartes das maiores potências. O guarda-redes de uma grande equipa parece um espectador mas faz parte do elenco; observa mas não se pode distrair; é protagonista mas passa a maior parte do tempo como actor secundário – por ter aparições esporádicas torna-se mais visível para o elogio ou a crítica. Quando comete um deslize grave, sofre mais do que nunca os efeitos da solidão: fica sem jeito, à mercê da acusação exterior de responsabilidade por todos os pecados colectivos. É então que precisa de ser forte para manter o equilíbrio (o jogo continuará a desenrolar-se longe) e perceber que a rectificação do erro pode até ficar adiada para outra altura (hora e meia, às vezes, não permite acertar todas as contas). Se nessas circunstâncias controlar as emoções e mantiver a concentração, estamos perante o anúncio solene: é o homem certo no lugar certo.

3. Moreira está a crescer bem e depressa; Quim não tem equipa; Nélson e Tiago procuram consistência. Com 27 anos, Ricardo está a cumprir as etapas que conduzem à construção de um extraordinário guarda-redes: por confiança em si próprio, mantém o desejo de participar no jogo; sem correr riscos, não perdeu preocupações de ordem estética; por temperamento, é generoso com o público na espectacularidade que empresta às acções. Aos poucos tem moderado os ímpetos e já dá mais valor à sobriedade, ao sossego e à segurança; porque a experiência é cada vez maior, passou a reger-se segundo a lógica e as regras das grandes equipas – a selecção sempre, o Boavista às vezes. Todo um manual de comportamento que, em Portugal, só um guarda-redes conhece de trás para a frente: Vítor Baía. E para o caso não tem qualquer importância ser ou não melhor que os outros – advirto, porém, que remo contra a corrente e acho que sim, ainda é o melhor de todos.

4. Vítor Baía viveu sempre em grandes equipas (FC Porto, Barcelona e Portugal). Ele foi o menino-prodígio transformado em herdeiro da grande dinastia (Azevedo, Carlos Gomes, Damas e Bento); o adolescente com perfil de adulto, que resumiu precocemente maturidade, classe, inteligência, voz, confiança e intimidação; o elemento consensual de uma potência dimensionada a partir de conflitos que sempre geraram mais ódios que simpatias; o lutador que não se rendeu e aceitou pôr à prova dor e ambição. O Mundial da Coreia foi o mote para as primeiras grosserias; a ausência das listas de Scolari (mistério para o Euro-2004) legitimou sessões públicas de vampirismo indecente. Baía tem o aconchego de 14 anos marcantes para o futebol deste País; tão importante quanto isso suporta-se numa época de ouro, com a qual tem silenciado os profetas da desgraça. Agora só o preconceito alimenta os fundamentos de quem pretendeu ter razão antes de tempo. Tudo tem um fim e Vítor Baía reclama apenas o direito a pronunciar-se sobre o seu. Decidiu que é para depois. Por mim, está decidido.

Rui Dias